Artistas: Cinthia Marcelle, Fábio Morais, Fábio Tremonte, Lia Chaia, Márcia Xavier, Nina Moraes, Marilá Dardot, Matheus Rocha Pitta, Patrícia Leite, Pedro Motta, Raquel Garbelotti, Rosângela Rennó e Sylvia Amélia
CLIPPING
REALIZADA ENTRE OS DIAS 15/05 E 20/06/2008.
RELEASE

por Luisa Duarte

Escrevo este texto antes de ver a exposição montada. O texto que sairá no catálogo, ao final da mostra, será realizado a partir de uma reflexão, ou seja, tendo como aliada aquela distância mínima sobre o que se passou e o que se viu. O que posso compartilhar hoje com vocês são as premissas que guiaram as escolhas por estas obras e os artistas aqui reunidos.

Os trabalhos propostos para a coletiva “ Turistas, volver” partem da experiência do tempo na contemporaneidade. Entretanto, tais trabalhos não mimetizam tal experiência, mas sim a modificam, solicitam uma outra relação com o tempo, seja por parte do público, seja da parte do próprio artista ao realizá-lo.

E como se dá esta experiência contemporânea do tempo? Para tentarmos entender um pouco mais acerca desta experiência, comecemos voltando um pouco na História. O mundo moderno que herdamos teve seu início no século XVII. Ali nascia o fundamento do ideário iluminista – a convicção de que a razão seria capaz de conduzir a humanidade progressivamente em direção à paz e à justiça social em prol de sua emancipação. Tratava-se de uma forma de conceber o mundo na qual a razão seria capaz de reger as ações do homem no tempo presente e desta forma levá-lo em direção a um futuro melhor. Ou seja, estava em marcha a crença no progresso. Crença esta que fazia do futuro o momento privilegiado, no qual o homem enfim se realizaria, chegando ao lugar – utópico – projetado pelo ideário iluminista.

Esta maneira de ver o tempo doava a ele características espaciais. O tempo era visto como uma linha reta, que deveria caminhar para frente impulsionado pelo progresso. Sobre isso, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma: “A projeção do espaço sobre o tempo forneceu ao tempo traços que só o espaço possui “naturalmente”: a época moderna teve direção, exatamente como qualquer itinerário no espaço. O tempo progrediu do obsoleto para o atualizado, e o atualizado foi desde o início a obscolocência futura. O tempo tinha o seu “a frente” e o seu “atrás”: uma pessoa era incitada e empurrada a andar para a frente com o tempo ”.

Em poucas palavras, é como se bastasse escolher um itinerário, se munir do conhecimento necessário da estrutura espaço-tempo e assim se chegava ao objetivo pretendido. Hoje, no entanto, sabemos bem o quanto esta estrutura espaço-tempo modificou-se, vivemos numa lacuna entre o passado e o futuro. Diante deste novo tempo cujo futuro já não mais pode ser projetado (eclipse das utopias), e de um passado que deve ser sempre o mais rapidamente superado e que há muito já não nos lega ensinamentos úteis (liquidação da memória), findamos por viver a exacerbação de uma experiência restrita à percepção imediata do presente.

Tal experiência nos coloca num caldo de aceleração. Um frenesi por mudanças acompanha a corrida proposta por uma sociedade de consumo onde a ansiedade impera. Uma urgência de satisfação permeia o ar. Uma sensação de vazio permeia o ar. Há que se consumir rápido, antes que acabe, há que se consumir muito, para não ficar para trás no jogo. Neste jogo, toda demora, também a “demora da satisfação”, perde seu significado, afinal, não parece haver ponto de chegada. Este mundo em constante movimento gerou uma figura emblemática, a do turista. O mesmo Bauman elege esta figura como exemplo paradigmático desta vida nômade, acelerada, que a época contemporânea concebe. “A peculiaridade da vida turística é estar em movimento e não chegar”.

 Tal estado de coisas possui inúmeros desdobramentos. Buscando apontar somente alguns deles, podemos pensar num visível déficit de atenção, de capacidade de nos demorarmos numa mesma coisa. Queremos que a coisa se mostre logo, por inteira. Não há espaço para aquilo que é velado ou se mostra aos poucos, lentamente. Ou nem sequer enxergamos de fato o que se mostra, tal a pressa por novidades. Assim, o tempo da espera, da duração, vai se perdendo. Se o advento da reprodutibilidade técnica no início do século XX causou inúmeras mudanças na percepção e na própria arte (destituída da sua função primeira de representar o mundo), a revolução digital do século XXI vem causando transformações ainda mais profundas no nosso modo de apreender o mundo, nos relacionar com coisas, pessoas, e também com isso que chamamos de arte.

Partindo deste breve levantamento de sintomas do mundo atual, a intenção foi reunir na presente exposição trabalhos que lidem, de diferentes formas, com este universo de questões. Estão aqui obras que ora solicitam uma percepção mais demorada do espectador, uma paciência do olhar, seja pela sua duração, seja pela natureza da sua visibilidade (menos explícita, mais velada); bem como trabalhos que se ocupam de uma iconografia turística típica de um modo dissonante. Há ainda aqueles nos quais o artista, ao realizá-lo, incorporou um tipo de processo que caminha na contra mão deste ritmo acelerado, percorrendo um longo e paciente percurso para a sua realização. Outros olham de forma delicada para um tempo que passa quase inerte, em meio à inquietação da atualidade. Daí o título, “Turistas, volver”, propondo uma pausa neste ritmo veloz, buscando manifestações que traduzam momentos de interrupção, mesmo que provisória, no modo turista de estar no mundo, abrindo caminho para uma outra experiência do tempo.