Artista: Rosa Oliveira
CLIPPING
REALIZADA ENTRE OS DIAS 20/08 E 19/09/2009.
RELEASE
Um sol partido ao meio

por Marisa Flórido Cesar

 

Flores
negras no negro
inéditas
flores
opacas (nenhuma
estrela).

Nunca
irão saber que são
Flores.

Orides Fontela

 

Algo irrompe intempestivamente. Fúria e delicadeza, terror e êxtase. Um descomedimento que se trama em ambigüidades: uma “tempestade de flores”. Rosa Oliveira apresenta um recorte de sua produção artística ao longo de dez anos. Uma década de rigor construtivo e precisão geométrica alheios às loquacidades vãs e aos frêmitos fugazes dos espetáculos contemporâneos. As pinturas de Rosa Oliveira exalam a gravidade de quem enfrenta tempestades sem temer dilaceramentos. Repousam flores (invisíveis e abstratas) entre a visão impossível e o excesso que se exibe. Um quase (demasiado) e um entre (infinito) confidenciam sua poética. Um quase silêncio, um quase murmúrio, um quase tom. A artista desde logo recusou a ver, no preto, ausência e luto, o avesso da plenitude de luz e cor. Colocou-se uma tarefa: redimir o preto das dores ancestrais, das submissões das sombras. O negro não desfere sobre a luz seu espectro, mas quebra a cegueira dos sóis, revela as possibilidades dos crepúsculos. Aos poucos, abrindo-se a outras cintilações (alguma estrela), foram se insinuando entretons: entre-pratas e lilases, entre-rosas e oliveiras, entre-azuis e kleins… Não são as linhas ou as cores que são exaltadas, mas os timbres, os matizes que povoam o entre, o infinito da ínfima diferença: são incontáveis pretos, rosas, pratas, azuis. Na abertura ilimitada desse entre, na demasia dúbia desse quase, aloja-se a pluralidade dos acontecimentos pictóricos, o infinito de seus ensaios. Flores precipitando-se em tempestades.