Artista: Nina Moraes
Clipping
REALIZADA ENTRE 21/05 E 08/06/2007.
SOBRE A EXPOSIÇÃO
Colagem ativa em tempos líquidos

por Juliana Monachesi

Nina Moraes tem uma trajetória marcada pela escolha de um caminho “entre” a fluidez e a imobilidade, o líquido e o sólido, entre os valores da transitoriedade e da permanência, sem contudo ter optado por um único destes partidos. À luz das teorias do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a transição de uma modernidade sólida para a “modernidade líquida” na sociedade contemporânea, cabe a pergunta se a artista não se inscreve, por meio de sua obra, também num estado transitório entre estas duas polaridades? Seu trabalho não milita nos princípios modernos da ordenação formal ou da atividade subliminatória da visão, nem tampouco festeja os princípios pós-modernos da diluição autoral ou da vanglória do efêmero (que é em geral falsa, como atestam a compulsão e a quase-histeria do registro nos nossos tempos).

A obra de Nina Moraes se situa justamente “entre” o rigor formal (o diálogo com a tradição pictórica está presente em toda sua produção objetual) e a efemeridade (muitos dos objetos construídos ao longo dos anos 1990 possuem um substrato de mutabilidade, mas as peças mantêm, ainda assim, uma estrutura estável), “entre” uma aposta na potência visual dos trabalhos e na incompletude destes, que dependem muitas vezes do dado prosaico da experiência individual (um material espelhado que integra o espectador na obra, uma imobilidade aparente que convoca o espectador a, fisicamente ou mentalmente, revirar os elementos da obra para enxergá-la em outras configurações possíveis).

“Affiches lacérées… pedaços de papel rasgado flutuam sobre futuros pedaços ainda por serem rasgados. Metades de sorrisos em meias faces resgatadas; olhos avulsos ou solitárias orelhas sem par; joelhos e cotovelos sem nada que os conecte ou sustente. Gritos que silenciam antes de serem compreendidos, mensagens que se dissolvem e se desvanecem numa fração de sentença, detidas e estranguladas muito antes do local de nascimento do significado; clamores ou frases inacabadas sem terem um lugar de início. Mas essas pilhas de fragmentos estão cheias de vida. Nada aqui fica parado; tudo está de licença temporária de algum lugar ou de passagem para algum outro. Todos os lares são apenas hospedarias no meio do caminho. Esses quadros de avisos e paredes, superlotadas por camadas sobrepostas de significados que já foram, teriam sido ou ainda poderão ser, são fotos instantâneas de uma história em curso, de uma história que avança retalhando seus traços: a história como fábrica de rejeitos, de lixo.” (Zygmunt Bauman em Vida Líquida, 2007, ed. Jorge Zahar, p. 85).

Figuras históricas do Nouveau Réalisme, como Jacques Villeglé e Mimmo Rotella, foram influência direta para Nina Moraes em seus anos de formação, principalmente durante sua estadia em Paris no início dos anos 1980. O trabalho de Villeglé  é tomado como um dos maiores exemplos da arte da era líquido-moderna por Bauman. Não há como não associar os “affiches lacérées” [cartazes lacerados] de Jacques Villeglé aos “morceaux choisis” [pedaços escolhidos] de Nina Moraes. Dando título em francês à intervenção urbana que realizou em 1982 nas ruas de São Paulo, a artista presta tributo à gênese criativa de seus processos artísticos. Dez anos depois, ela apresentaria o projeto ACTIoN C0LLAgE no Sesc Pompéia, 14 noites de performances colando e rasgando cartazes ao som de John Cage.

Nas palavras da artista: “O jogo da apropriação do real, contornamos aqui e ali, as estratégias para melhor compreender nosso mundo objetivo/objetual e sutil/abstrato. Relendo os novos realistas vejo o quanto fui marcada por esse encontro em todo meu trabalho, dos ‘mundanos’ Arman, Hains, Villeglé ao espiritual e pictórico Yves Klein, e mesmo François Dûfrene”.

A presente mostra não deixa de ser um reencontro com essa primeira etapa da produção: uma exposição toda dedicada à colagem. As obras recentes de Nina Moraes lidam com o acúmulo, a transparência e a transitoriedade, assim como objetos pelos quais a artista ficou mais conhecida, como a série de prateleiras, de colunas ou formas encapsuladas, mas em anos recentes Nina Moraes retornou à superfície bidimensional, valendo-se de pedaços de papel, adesivos, fragmentos de imagens, padronagens pré-fabricadas colecionadas ao longo de uma vida, que ela reorganiza em uma ação intuitiva sobre uma base plana. Estes vestígios re-trabalhados pela artista falam de uma sociedade de consumo que elimina com velocidade o produto da estação passada e de uma sociedade de informação que sobrepõe e anula os dados do milésimo de segundo anterior com acachapantes novidades que já surgem velhas. Deste jogo voraz da memória tratam as obras da exposição de Nina Moraes ao imporem outro ritmo de retirar e colocar informações no mundo, e, sobretudo, ao alçarem à categoria da permanência da arte fragmentos fadados a desaparecer.

A artista põe na ordem do dia uma ecologia cultural que trata de resguardar e re-significar pequenos atos, pequenas memórias, pequenos guardados. O cunho político de uma tal ação  não pode deixar de transparecer, ainda que não constitua o cerne do discurso plástico aqui em questão. No contexto de mudanças contínuas que caracteriza a modernidade líquida, aqueles que não podem acompanhar o fluxo da reciclagem profissional e do avanço tecnológico acelerados e que não se enquadram nos novos moldes de cidadania, em que os direitos civis parecem ter sido distorcidos em potencial de consumir, vivem à margem da sociedade líquida; o indivíduo contemporâneo ganha de Bauman o epíteto de “sitiado”. Uma arte do fluxo que o tematiza criticamente adquire, assim, um cunho político, porque questiona este estado de sítio.

“Vagando de um episódio para outro, vivendo cada um deles de olhos fechados a suas conseqüências e mais ignorante ainda em relação a seu destino, guiada pelo impulso de apagar a história passada em vez de pelo desejo de traçar o mapa do futuro, a identidade está presa para sempre no presente, tendo agora negada sua significação permanente como alicerce do futuro. A identidade luta para abraçar as coisas ‘sem as quais não se pode estar nem ser visto’ hoje, embora totalmente consciente de que, muito provavelmente, estas se transformarão em coisas ‘com as quais não se pode estar nem ser visto’ amanhã. O passado de cada identidade está salpicado de latas de lixo em que foram despejadas, uma por uma, as coisas indispensáveis de dois dias atrás, transformadas em fardos incômodos de ontem”, escreve Bauman sobre o “indivíduo sitiado” (op. cit, p. 46).

As colagens recentes de Nina Moraes são um vagar crítico entre um episódio e outro, uma re-visitação de várias séries de trabalhos, reciclando os fragmentos que sobreviveram, dando sentido ao passado e ao futuro. Ao retomar o “primo impulso” das obras de 25 anos atrás, a artista demonstra que o impulso primeiro não tinha um alvo fixo a ser alcançado por uma trajetória linear e racional; ao contrário, permeado de uma inteligência líquida, visava alicerçar um caminho com refluxos, idas e vindas, incoerências e certezas apenas temporárias, complementaridades. Paisagens e espelhos feitos de pedaços de identidades encontrados na lata do lixo da história, as obras da presente exposição estão entranhadas do espírito de seu tempo e de um encanto assombrado com o devir.