Artista: Rosa Oliveira
CLIPPING
REALIZADA ENTRE OS DIAS 12/11 E 12/12/2009.
RELEASE

por Marcelo Campos

“A alegria é a prova dos nove”. Esta afirmação de Oswald de Andrade inaugura uma contradição. Nascemos fadados à alegria? Será o Brasil o eterno fornecedor da ilusão? A alegria, poderíamos refletir, não é o fim, mas o caminho tortuoso, a meta. E, ainda assim, um desafio a conquistar, não uma presença constante, simples, dada. Lévis-Strauss percebeu que nossos trópicos poderiam ser tristes. Efrain Almeida nasce no sertão do Ceará. A busca por uma poética óbvia relacionada à brasilidade poderia colocá-lo atento às celebrações da alegria. Mas, a vida o impele a observações mais subjetivas, o jardim da casa materna, o vôo dos pequenos seres alados, o ofício do pai, o silêncio, a solidão. A melancolia, na trajetória de Efrain, é uma espécie de superação da sua própria história. Superar a história, nos aponta Donald Kuspit, é uma tarefa melancólica. Saindo do sertão ainda criança, Efrain retorna recorrentemente à casa dos pais. Deste lugar fantasioso, resta-lhe a memória atualizada no presente. Assim, temos imagens lembradas e projetadas no embate entre o vivido e o inventado. A partir disso, o artista elabora imagens: paisagens, naturezas, bestiários, sensações, afetos, ritmos, repetições, auto-retratos. Com particular curiosidade, Efrain Almeida mantém-se atento à beleza, não aquela que define coisas e tipos determinados pelas grandes narrativas, mas, sim, uma beleza enviesada, às vezes cruel, arrancada da banalidade, da domesticação da natureza. Colecionador é uma série de 22 mariposas em aquarela que nos remete ao gesto infantil e, em certo sentido, mórbido de colecionar borboletas, espetadas em alfinetes, pregadas na planaridade de painéis. Com isso, lá estamos nós, como espectadores da domesticação dos lepidópteros que nos presenteia com pletora de cores e formas desenhando asas, antenas, corpos minúsculos. Um inseto dividido em dois. Porém, esta observação é uma sensação fugidia. A qualquer instante, podemos perdê-las entre as mãos. A arte de Efrain Almeida se interessa por esta sensação bela e melancólica de querer para si o puro deleite de uma beleza capturada, ainda que por instantes. Assim, Efrain observa as paisagens como um exercício prolongado, quase uma meditação. Com isso, constrói repetidas vezes os gestos do ofício no entorno dos desenhos e esculturas. A arte de Efrain dialoga com uma certa sensação monástica, elaborando trajetórias silenciosas nos espaços expositivos, na amplidão do cubo branco, com adição de unidades. Observa-se a galeria como um lampejo da memória de um jardim edênico. A natureza, aqui, funciona na intimidade das paisagens domésticas, do quintal, do jardim. A melancolia está estritamente ligada a estas sensações: rememorar a casa da infância, o afeto dos pais, observar um Brasil não-óbvio. Assum Preto é uma destas tentativas de rememorar o sertão, atualizando-o na espacialidade contemporânea. Um conjunto de oito esculturas pirografadas (assuns) desenha uma cartografia circular, pontuada por um fio de canutilhos vermelhos. Lágrimas, sangue, estigmas. Aqui, a religiosidade contribui para a imaginação do menino que via os passos da paixão nas festas populares, uma imagem ambígua entre a dor e a glória. Efrain olha estas tradições como o personagem melancólico da pintura de Turner observa a ponte e as luzes da cidade. Olha para o sertão imaginando reflexos. Por que narciso só pode se ver no reflexo dos rios? “O Tejo não é igual ao rio que corre na minha aldeia.” Olho o monóculo da memória e busco a criança que eu fui, que quis ser. E ali, me vejo solitário, desenhando no papel como se buscasse o reflexo de mim mesmo nas diversas trajetórias da linha, dos rabiscos erráticos. Hoje, na Galeria Carminha Macedo, Efrain Almeida apresenta Os melancólicos, nome da exposição e do trabalho constituído por uma dupla de esculturas, autorretratos, em que sujeitos diminutos se olham.