Artista: Mario Vale
Clipping
REALIZADA ENTRE OS DIAS 18/11 E 12/12/2010.
RELEASE

por Fernando Cocchiarale

Que referências icônicas e afetivas afloram das figuras e dos objetos construídos por Mario Vale nos últimos três anos? Que tramas semânticas poderiam ser imaginadas a partir destes trabalhos?

Influenciado pela estética das histórias em quadrinhos desde o início de sua produção, na década de setenta, Vale tornou-se mais conhecido por seus trabalhos nas artes gráficas, seus cartuns e livros infantis que como artista plástico, já que ficou muito tempo sem expor as obras que continuou a produzir em seu ateliê. Todas essas atividades, sobretudo aquelas da concepção e da ilustração de seus livros, comparecem reelaboradas nos trabalhos agora expostos. Feitas a partir do recorte, da colagem e das dobraduras de papéis coloridos, as imagens destes livros possuem, simultaneamente, um teor real e onírico que as conectam, por um lado, ao mundo – pela incidência direta da luz sobre a volumetria dos recortes – e, por outro, ao universo infantil resgatado pelo sensível mergulho de Mário Vale em um mundo que nós, adultos, perdemos para sempre, mas que, por vezes, podemos entrever.

Parte desse mundo reaparece nas obras-objeto recentes de Vale. Esses trabalhos, no entanto, contrastam com o acabamento refinado de suas ilustrações, permitido não só por uma feitura esmerada, como também por processos fotográficos e gráficos industriais. Eles possuem aqui uma precariedade cuja origem pode remeter a outro mundo técnico e imaginário: aquele do artesanato popular nutrido pela reciclagem, tão familiar à experiência brasileira.

Conforme depoimento escrito pelo próprio artista (Sobre Meu Trabalho…): (…) “Uso, como suporte, madeiras e outros materiais que sobram de construções, cheios de “interferências” surgidas durante a sua utilização. Têm madeiras quebradas, pintadas ou sujas de tinta, com pregos, restos de massa, manchas texturas, etc. Procuro, entretanto, não ficar restrito só ao que encontro pronto e faço outras interferências, utilizando outros materiais. O acabamento das figuras é propositadamente “mal elaborado”. É isso…”

Essas evocações do mundo infantil e do imaginário cultural que o alimenta não seriam possíveis sem uma invenção liberta dos condicionamentos que formatam comumente a produção artística. Mário Vale pode, nesse sentido, ter seus objetos e figuras, profusamente coloridos, aproximados às experiências de alguns artistas que mergulharam na infância – na fonte da qual brotaria o lençol de sentido bruto prévio à separação entre as esferas sensíveis e inteligíveis, mencionadas por M. Merleau-Ponty, em O Olho e o Espírito – para dela extrair um sentido poético essencial e acessível a todos. ­­­

O Circo de Alexander Calder, os brinquedos de Joaquin Torres-Garcia e muitas das figuras de Paul Klee resultaram de mergulhos semelhantes. Nesse sentido a enigmática citação gravada na lápide deste último artista mencionado pode ser esclarecedora: “sou inapreensível na imanência, pois vivo tão bem entre os mortos quanto entre os embrionários. É algo bem mais perto do coração da criação do que o habitual”. É isso…