Artista: Fábio Tremonte
CLIPPING
REALIZADA ENTRE OS DIAS 27/09 E 29/10/2008.
RELEASE
São Paulo silencia dentro do armário da pia de cozinha

por Juliana Monachesi

Assistir ao vídeo “Ilhas de silêncio”, de Fábio Tremonte, aciona memórias e faz a gente ter vontade de acrescentar também o nosso ao conjunto de depoimentos colhidos pelo artista sobre experiências de silêncio. Minha lembrança mais impactante de uma ilha de silêncio é a obra “Plight” (1958/1985), de Joseph Beuys, uma instalação feita com 284 rolos de feltro recobrindo toda a extensão de um amplo ambiente (as medidas da obra, segundo o site do museu George Pompidou, são 310 cm x 890 cm x 1.813 cm) que contém, além do visitante ensurdecido, um piano de cauda, uma mesa e um termômetro a mercúrio.

A força do silêncio absoluto criado pelo isolamento acústico dos rolos de feltro nas paredes é amplificada pela presença do piano, um som em potência que permanece mudo. O vídeo de Tremonte não trata do silêncio pela via do mutismo. Em seu filme, que flerta com o documental, o tema aludido no título é abordado, sobretudo, por meio de depoimentos. Aqui, por-tanto, o “silêncio” é falado, nomeado, descrito e qualificado. Para um, a ilha de silêncio é a concentração necessária para produzir um desenho, para outro, é o isolamento dos ruídos urbanos que passageiros de ônibus criam ao se insularem em seus tocadores de MP3.

Uns associam o silêncio a experiências vividas em meio à natureza, como descobrir em Itatiaia “uma ilha de ar rodeada de bambus por todos os lados”, enquanto outros concebem o silêncio por contrastes, como o barulho ensurdecedor de um avião passando, que toma o espaço por completo. Para alguns, silêncio tem a ver com momentos da pausa “é onde minha alma acalma, onde você tira a neblina e volta a enxergar as coisas nos seus devidos lugares; minha ilha de silêncio é de dentro para fora”, e para outros pode insurgir de um som de toque de celular que os faz notar o silêncio em que estavam, ou da ação de pôr um CD pra tocar e perceber o silêncio entre uma música e outra.

Uma “entrevistada” distingue dois tipos de silêncio: o “silêncio-vazio”, que classifica como solidão e desespero, e o “silêncio-desejo”, que descreve poeticamente como “uma cama dentro do armário da pia de cozinha que eu pudesse fechar, sumir lá dentro e aparecer uns três dias depois”. As pessoas ouvidas pelo artista em seu vídeo não são identificadas por legendas; tem gente ali que é possível reconhecer, artistas do círculo das artes de São Paulo, mesmo no caso de alguns artistas que sequer falam, como Ana Teixeira, que aparece de costas para a câmera, meditando de frente para uma janela, ou que não aparecem no vídeo, como Sonia Guggisberg, reconhecível pela voz em off que descreve a prática cotidiana de uma meditação em busca do silêncio, enquanto a câmera, parada, enfoca uma paisagem, talvez a mesma que a artista observa ao meditar.

Há um jogo de transparência e opacidade que alinhava toda a edição de “Ilhas de silêncio”: as imagens de um homem que percorre a avenida Paulista no banco de trás de um carro, observando a paisagem urbana em silêncio, colocam o espectador ao lado do passageiro, como se não houvesse mediação, assim como outras ações e declarações, em que o participante não olha para a câmera. Por outro lado, durante um depoimento, a voz do artista “aparece” concordando com uma afirmação, em outros, “surge” na fala do entrevistado “quando eu recebi o convite…”; “quando li sua proposta…”. O artista aposta em dois jogos ao mesmo tempo: o primeiro, anterior à captação de imagens, diz respeito à negociação com as pessoas que participam do vídeo que convite foi esse? qual proposta foi feita para que o trabalho acontecesse?, o segundo, pós-produção, está no ocultamento e no desvelamento da mediação da câmera.

“A melhor mediação que você pode fazer é deixar que a pessoa tenha um contato silencioso com a obra de arte”, afirma um participante, lembrando que o silêncio é um tema caro para o universo das artes, mas também ecoando a fala silenciosa de Fábio Tremonte onipresente no vídeo, assim como em grande parte de sua trajetória, desde os desenhos e monotipias até sua recente produção audiovisual. A “transição” das obras silenciosas (desenhos, monotipias, intervenções diretamente sobre a parede do espaço expositivo etc.) Aos vídeos “zens” não foi abrupta,houve uma etapa em que o artista se interessou por meios de comunicação de massa, do papel comum de papelaria às câmeras caseiras, como a de celular.

E na série de filmes que Tremonte realizou de 2006 até o presente “Ilhas de silêncio”, chama a atenção, tanto nas imagens quanto nas trilhas sonoras, a opção pelo “silêncio”. Em ordem cronológica, “Zen” (2006), “Zapping movie” (2006), “Ação zen [Nightshot skateboard]” (2007), “Ação zen [Nighshot dancing with myself]” (2007), “Aventuras pelo invisível” (2007) e “Só” (2007) são vídeos marcados pela coerência entre imagem e som: quando o áudio não é intrínseco à ação filmada (som ambiente), o vídeo não tem som. Em “Aventuras pelo invisível”, o único cuja ficha técnica explicita o uso de câmera de celular, é um vídeo que se opõe à mobilidade do aparelho e no qual a trilha sonora, uma música de Laurie Anderson, faz as vezes de um diálogo reencenado com Marina Abramovic.

Falar em coerência interna da obra e em aposta simultânea em dois jogos para analisar os trabalhos de Fábio Tremonte pode soar contraditório, mas é nessa lacuna que sua obra se realiza. A “ilha de silêncio” compartilhada por Sonia ou o próprio silêncio partilhado por Ana destoam das falas dos outros participantes do jogo proposto pelo artista: se um descreve o silêncio como a “quietude para escutar o que é estar no mundo”, outra confessa: “estou tentando carregar a tal ilha comigo”. O vídeo não tem fecho, não oferece conclusões apaziguadoras ao espectador, não explica o que é, afinal, uma “ilha de silêncio”: aí reside a aposta, e também a coerência, do artista.

Este texto foi escrito parcialmente em silêncio (entremeado por Charlotte Gainsbourg e PJ Harvey). Enjoy the silence!