Artista: Alexandre Vogler
CLIPPING
REALIZADA ENTRE OS DIAS 13/11 E 13/12/2008.
RELEASE
Cidade, paisagem, mídia externa

por Alexandre Vogler

Existe uma cidade ideal, desenhada por arquitetos e urbanistas. Para além disso, seus habitantes constroem sua visualidade, agindo e permitindo sua transformação espontaneamente sob bases de tolerância e bom senso.
Essa visualidade configura a cultura visual do lugar onde milhares de pessoas convivem. A cultura visual de uma cidade grande é parte efetiva da noção de Paisagem que seus habitantes formam a cerca do lugar onde vivem.

Há tempos se percebeu, que a publicação do Capital só se faria de forma extensa e triunfante caso a imposição de sua marca abarcasse a escala do cotidiano. E a tomada das ruas, como o novo ground simbólico, se deu de forma natural e permissiva pela imagem-mensagem e sua recém-criada ciência.
As relações entre imagem e informação se estreitaram não deixando espaço para a subjetividade e os devaneios que permeiam a contemplação nos espaços de convívio.

Essa transformação foi absorvida e diluída no corpo social. Aos poucos os locais “ociosos” passam a ganhar função, pois, diante de uma cidade que cresce sob parâmetros de produtividade, todo e qualquer mobiliário urbano é passível de transformação, contanto que isso gere dinheiro.
A tomada do espaço público é feita diante de um público amortizado. A privatização do espaço de convívio convive com a subjetividade dos padrões de poluição visual.

O ser humano tolera tudo, desde que aos poucos.

Portanto a transformação do espaço público das cidades, quase sempre, se dá de forma gradual – quase pedagógica – avalizada pelos responsáveis de sua manutenção: os representantes do poder público.

A adequação do mobiliário urbano às regras do capital é um exemplo da transformação da paisagem das cidades em grandes corredores de publicidade estática.
As imagens veiculam aquilo que o espectador-pedestre quer vê. Campanhas publicitárias são precedidas por pesquisas de opinião que estabelecem a conformação dos elementos simbólicos contidos nas imagens.
Isso produz a sensação de prazer e deleite aos consumidores em potencial, capturados pela força de composições sofisticadas e bem produzidas.  O julgamento estético recobre o julgamento ético nesse grande campo simbólico que se transformou a paisagem imagética das cidades.

Dessa forma, recorro a uma imagem ordinária que, veiculada junto a um vidro de esmalte de unha, reproduz uma campanha publicitária de um cosmético.
A escolha deste segmento deve-se a fetichização da imagem da mulher em campanhas dessa (e outras) natureza como apelo de consumo. Assim, imprimo as mãos de uma mulher casada, com unhas pintadas de vermelho, sobre imagem manipulada que faz alusão ao órgão sexual feminino.

Parafraseando tais estratégias utilizo, grosseiramente, a imagem feminina alargando os padrões de aceitabilidade e bom senso utilizado nestas campanhas. Viso, com isso, estimular o pedestre amortizado a refletir sobre tais artimanhas utilizadas no mercado de forma subliminar, fazendo com que ele associe o mesmo procedimento em outras campanhas, feitas à vera, mas encobertas por recursos estéticos que ameniza a ilegalidade de suas ações.

A imagem contida, na verdade, trata-se de um conjunto de partes do corpo humano, alterados e reunidos digitalmente com a intenção de simular um conteúdo erótico, belicoso e, até mesmo, escandaloso.
No entanto a associação natural que se faz não condiz com a natureza original da imagem. Como disse, trata-se de uma manipulação, realizada por design gráfico, que trabalhou para a obtenção desse resultado. Resultado que põe em prova os níveis de tolerância do pedestre, solicitando uma reação a esse e outros produtos que cooptaram a paisagem da cidade a revelia do poder público.

por Daniela Labra

O carioca Alexandre Vogler é pintor, formado pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Esta seria uma informação pró-forma não fosse que o aspecto interdisciplinar da obra deste artista camufla o tema que lhe é mais caro: a pintura.
Não é fácil num primeiro olhar, entre visões de imagens eróticas, popularescas, midiáticas, localizar a referência da mais antiga linguagem das belas artes, tantas vezes morta e ressuscitada no século XX. A pintura não morreu pois para matá-la seria necessário acabar com a história e com a própria arte. Ela resiste e surge na contemporaneidade como pensamento sobre a técnica e procedimentos que existem além do formato tinta-sobre-tela: a pintura hoje pode ser assunto, alegoria, idéia.  Desse modo, é possível detectá-la em situações tão diversas como na deterioração de cartazes colados em via pública, na menção ao uso de materiais próprios ao processo pictórico, na pesquisa de cores ou até mesmo num procedimento de criação que tem na atividade alquímica do atelier a base segura para experimentações.

Tais compreensões da pintura enquanto mote vão de encontro a aspectos importantes do procedimento de Alexandre Vogler, como o rigor no estudo de cores, o atelier como laboratório de criação, a predileção por obras bidimensionais e a utilização de pigmentos, técnicas e ferramentas da pintura. A questão pictórica na obra do artista é de fato um modo de processar as referências captadas em bancas de jornal, na TV, no rádio, nos ônibus em movimento, nos muros, nas lojas de quinquilharias chinesas ou de artigos de umbanda, no bar, nos livros…

Apoiado na pintura como assunto inicial, Alexandre Vogler faz com que a narratividade de uma imagem seja preterida em relação ao seu potencial pictórico. Um exemplo são as séries de cartazes “Base para Unhas Fracas” e “Fé em Deus, Fé em Diabo”. Ambas fazem alusão a elementos da cultura visual popular e comentam valores morais da família brasileira ou o sincretismo religioso, mas os alvos são mesmo a sensualidade da cor vermelha justaposta ao corpo feminino e a beleza contida no colorido e no design simples de uma caixa de velas.

Em outros trabalhos, a narrativa é acentuada por propostas de essência pictórica que subvertem técnicas do universo da arte. Este é o caso da série “Pintura de Retoque” onde imagens impressas em puzzles são alteradas com pinceladas em trattegio, prática de restauração inicialmente aplicada para devolver a uma obra seu caráter original. Ao contrário da regra, Vogler inventa o retrato de um momento após, ulterior, de uma situação existente que não por acaso está estampada – e fragmentada – num quebra-cabeça. Em geral, o artista trabalha imagens de paisagens submetidas a tragédias como Manhattan e o atentado às Torres Gêmeas, o mar do Caribe e o furacão Katrina e o mapa mundi frente a projeções climáticas para o futuro, aqui exposto em “Physical Map of The World, By Our Children” e “Artificial Illumination Map of The World, By Our Children” (2008).

Uma faceta importante da produção de Alexandre Vogler é a que acontece na rua. Alimentada pelo acaso e pela ação/relação com o público-transeunte, a obra pode ser um cartaz colado num muro, uma intervenção no asfalto com elementos afro-religiosos, um desenho na encosta de um morro ou uma performance com fumaça colorida. Em todas essas ações o pensamento sobre pintura permanece, embora o cerne dos trabalhos em espaço urbano seja a reflexão sobre possibilidades de novos circuitos e visibilidade para a arte.

O interesse de Vogler pela cultura e visualidade popular urbana e pela questão pictórica como assunto, também o leva a pesquisar traços de erudição em objetos do cotidiano, tal como acontece na série de guaches que revelam a essência construtiva de rótulos de caixas de fósforos brasileiras criadas entre os anos 50 e 70. Aqui, o artista estuda o sonho construtivo brasileiro (projeto artístico-social que marca a entrada do país em solo moderno), tornado referencial visual da cultura pop disseminada por produtos industrializados.

Alexandre Vogler traz sofisticação e erudição encobertas sob a capa da fantasia popularesca. Sua produção multifacetada pode ser profundamente crítica e cínica e se fizer rir, não provoca o riso confortável. O olhar deste artista é subversivo e une erotismo sacro ao santo profano, o refinamento do kitsch à decadência do elegante, o caos sublime ao zen popular.  A obra do carioca Vogler é inconfundível. Como o Rio de Janeiro é bela, sensual, exótica, decadente, quente, ruidosa e implacavelmente tensa.