Artista: Maria Nepomuceno
CLIPPING
REALIZADA ENTRE OS DIAS 05/04 E 08/05/2008.
RELEASE
Alguns verbos

por Rodrigo Moura

1. Trepar
As esculturas estão no chão da galeria. Nas paredes, correm tubos que se ligam ao núcleo e a outros tubos que conectam as partes-todo da escultura. Talvez o ponto-de-vista ideal para ver as obras de Maria Nepomuceno seja o chão, deitado ou de gatinhas. A preguiça é uma ação importante nesta tensão escultural. É uma tensão-repouso, da gravidade do corpo que se solta e acha que encontra pouso. Alguns destes tubos estão suspensos e se apóiam na parede por estacas de madeira, calçadas no chão por calhaus de pedra ou de entulho, como trepadeiras que precisam de ajuda para começar sua subida. E as raízes, procurar, procurar.

2. Roçar
Um corpo deitado sobre o outro nunca está inteiramente em repouso. A busca do ponto de equilíbrio entre meu corpo e o seu gera um mínimo movimento constante e nunca exatamente repetido. Um roçar insistente que parece emitir um ruído da minha pele contra a sua. Abaixo de tudo o chão, com quem as esculturas de Maria parecem guardar uma afinidade e em que se esparramam. Mesmo quando estão em pedestal, elas se esgueiram para suas beiradas e ficam num flerte despudorado com a gravidade.

3. Arrastar
No emaranhado de partes e tubos, nas torções e conexões entre aquelas e estes, o corpo-escultura nunca pode ser montado duas vezes do mesmo jeito – mas pode um quadro, símbolo estereotipado da passividade retiniana da obra de arte, ser visto duas vezes do mesmo jeito? Na minha experiência recente com a obra de Maria, a vi primeiro numa exposição num dia muito quente no outono de 2006 no Rio de Janeiro. Na sala de trás d’A Gentil Carioca, as obras criavam um ritmado jardim, abrindo alamedas tortuosas. O desejo de se acocorar, de empreender o mínimo gesto a ligar distância e aproximação, verticalidade e horizontalidade do corpo, se colocou para mim como desejo latente, e estou quase certo de ter visto alguém de fato agachado para ter com as esculturas. No ano seguinte, na primavera fria de Milão, tive a chance de instalar uma escultura daquelas. Ao arrastar suavemente as duas partes ligadas por um cordão, espécies de cloches, ao pesquisar suas aberturas, dobras, alinhamentos, orientações, tensão e repouso, descobri que a analogia que ela mantém com o corpo é mais de natureza mecânica do que mórfica.

4. Repousar
Reside uma intensa dialética entre extroversão e introspecção nas esculturas de Maria. Ao mesmo tempo que se expandem pelo espaço, elas criam espaços internos silenciosos e intangíveis e muitas vezes se fecham sobre si, fazendo planos e volumes que aludem a mistérios do corpo e da criação. Esta conciliação entre derramamento e contenção é bastante visível nas duas maiores obras expostas em “Afetosíntese”, na Galeria Carminha Macedo (todos os trabalhos Sem título, 2008). Se alguns pontos das esculturas fazem o papel de extremidades subindo pelas paredes, seu núcleo é o local onde as seções se alargam, criando discos circulares rentes ao chão e cavidades de forma ovóide (em outra escultura, sobre um pedestal, a artista promove o abraço de dois vasos, um mole, de corda, e outro feito em cerâmica). O encontro e sobreposição destes volumes cria uma topografia, cujas curvaturas em vários sentidos, elevações e depressões, são o resultado final. Depois de toda a tensão criada pela feitura da escultura e das espirais sucessivas que fazem da linha plano e volume, depois das torções e dos giros que a escultura enfrenta no momento de ser instalada, ela repousa.

5. Encher
O domingo de praia é um acontecimento ao mesmo tempo épico e banal no Rio de Janeiro. Há um transbordamento do espaço privado em direção ao espaço público, que se apresenta tomado em cada milímetro. Um fenômeno que se verifica em outras cidades do Brasil mas que não pode ser mais paradigmático do que no Rio, repetindo-se semanalmente como algo extraordinário. A praia é bem mais do que uma forma popular de lazer (no sentido que o futebol é bem mais que um esporte); na verdade, ela é uma grande arena social onde costumes são testados e modas aparecem e desaparecem velozmente, onde se reage em tempo real diante das novidades do mercado, do comportamento, da moda e da política. Num projeto de intervenção (Domingo, 2003), Maria Nepomuceno operou dentro desta lógica, lançando uma grande bola inflável cor-de-rosa em que aparecia escrita a palavra “amor”, deixando que os banhistas interagissem com ela por algumas horas, sem necessariamente saberem que se tratava de um projeto artístico.

6. Esvaziar
Durante um sábado de Carnaval, Maria voltou a testar seu aparato e a registrar sua atuação em vídeo (Expiro, 2003). No cordão do Bola Preta, ao som de gritos de “assassino! assassino!”, a bola é furada. Seu caráter catártico não resistiu àquele ainda mais transformador do Carnaval, que acabou por anular a bola parasita cor-de-rosa em meio a tantas outras bolas pretas.

7.Costurar
A técnica peculiar da escultura de Maria consiste na justaposição incansável de seções de corda em espiral, por meio de uma costura interna que cria o plano (discos) e o volume (vasos, tubos, cordões). Nesta espiral teoricamente interminável, o espaço se torna um campo ativo, cheio de possibilidades. O gesto de costurar criando as espirais faz referência, num campo cultural mais ampliado, ao trabalho das mulheres ao longo da história. Não será ocioso associar esta pesquisa da artista com o espaço a uma rica linhagem de arte brasileira, que tem Lygia Clark (1920-1988), Ana Maria Maiolino e Mira Schendel (1919-1988) como personagens principais. Encontramos ecos, respectivamente, do Trepante, do Desenho Objeto e da Droguinha na maneira como Maria articula os aspectos corporais, espaciais e relacionais de sua obra.

8. Trançar
Seria oportuno traçar as relações da obra de Maria Nepomuceno com a história da arte brasileira recente, tarefa para outra empreitada. Tais ligações não deveriam, contudo, deixar de fora o profundo interesse que esta obra nutre pelo artesanato indígena. A artista cita a avó índia como a matriz desta relação, que se manifesta no uso da cor, do material e da técnica do trançado que surge em algumas obras ao lado da costura. A utilização do padrão industrial das cordas coloridas como found painting remete a outros padrões que encontramos na cestaria indígena. Assim como o uso da conta, que é a unidade mínima de algumas esculturas, enfiadas em um cordel depois espiralado, rotado e costurado. Numa destas esculturas recentes, há um elemento semelhante a um carretel, trançado em palha, por onde a escultura passava prendendo-o a ela. Um ornamento de uso pessoal, como chamam os antropólogos, parecido com um chapéu ou uma coroa. Sua presença ali me fez lembrar da força, da enorme força, contida na escultura e em todo corpo.

Institucional

A escultora Maria Nepomuceno define “Afetossíntese” como um processo vital no qual o afeto torna-se necessário para que todos seres cresçam, se desenvolvam e sejam felizes. Seu neologismo dá nome à exposição que abre o calendário 2008 de uma das principais vitrines da arte contemporânea na capital mineira: a Galeria Carminha Macedo.

Composta por esculturas que vêm sendo desenvolvidas desde 2003, a mostra contará com obras inéditas e duas incursões de Maria Nepomuceno na videoarte. “Afetossíntese” traz trabalhos feitos com cordas, contas coloridas, pérolas e objetos cotidianos que possam relacionar-se simbolicamente com a criação, como a cerâmica.

“Cheguei nesse material durante a minha gravidez, pensando sobre o cordão umbilical: essa parte do corpo de ambos, vital e misteriosa. A técnica de cordas costuradas (criando uma espécie de tecido, couro, pele) faz com que as esculturas, além da forma, tenham a organicidade de elementos vivos”, justifica a escultora.

Sobre a obra de Maria Nepomuceno, o escultor Ernesto Neto, escreveu: “A organicidade de suas obras é tanta que as esculturas se agrupam, se roçam, se tocam, com intimidade e independência, demonstrando simpatia por sua intrínseca vizinhança, que lhe agrega valor sem lhe retirar identidade. Trazem uma espécie tropicalidade para além de pop e uma visceralidade que se expressa sem pretender ser expressionista, desesperada. Muito pelo contrário, traz no seu corpo uma tranqüilidade do fazer cotidiano de um tempo do acordar viver dormir, de uma vontade de vida vivenciada no carinho do dia a dia como uma árvore que se desenvolve pelas curvas da necessidade simples de sol, terra, água, luz, quem sabe até um pouquinho de felicidade”.