Artistas: Alexandre Vogler, Caetano Dias, Carlos Bevilacqua, Divino Sobral, Eliane Prolik, Enrica Bernadelli, Fábio Tremonte, Hilal Sami Hilal, Marcone Moreira, Nina Moraes, Tatiana Grinberg e Walton Hoffmann

2006, Casa Andrade Murici, Curitiba / Paraná

REALIZADA ENTRE OS DIAS 03/10 E 30/11/2006.
RELEASE DA EXPOSIÇÃO

por Juliana Monachesi

No horizonte de uma sociedade líquida, tudo é mutável. A Manhattan de cartão postal da modernidade sólida pretenderia ostentar perenemente as duas torres mais altas do mundo. A corrida pela engenhosidade e excelência arquitetônicas de arranha-céus já havia desbancado o World  Trade Center do topo da lista com edifícios ensandecidamente mais altos em Taiwan e na Malásia. Mas a modernidade líquida1 das redes econômicas e políticas de poder, operando em permanente fluxo, sem fronteiras e sem identidades definidas, apagou do horizonte de Nova York o maior ícone da solidez de uma sociedade e de um tempo, depois da queda das torres, definitivamente encerrados no passado.

O território é substituído pela mobilidade, o espaço dos fluxos atual sobrepõe-se ao “espaço dos lugares”, ao lugar fixo da memória geográfica e cultural, a ausência de fronteiras tira o sentido da crítica moderna aos não-lugares; em um mundo de informações fluidas e permeabilidade desenfreada, tudo e todos se contaminam do espírito do tempo, mesmo que à própria revelia. Nada nem ninguém está imune. A identidade fixa dá lugar a infindável mutabilidade dos quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções. O desmonte dos grandes meta-relatos da modernidade (o Iluminismo, o Marxismo e as utopias do século 20) resultou em uma sociedade que não aspira à permanência e em indivíduos cujas relações e ambições são temporárias.

Dado este pano de fundo de uma condição humana fluida e volátil, de um contexto cultural pautado na leveza e de um presente líquido, como é que os artistas contemporâneos têm se posicionado na construção de suas poéticas? Esta é a pergunta de que a presente exposição se ocupa. Tomemos, por exemplo, os bordados de Divino Sobral, engendrados pela reflexão sobre “a passagem do tempo que gera o desgaste das coisas e afetos, a formação da memória e os processos de lembrança e de esquecimento”, nas palavras do artista. Estas obras são feitas por meio da imersão de tecidos em água acrescida de materiais oxidantes. O material de trabalho de Sobral é artificialmente “envelhecido” para disparar no observador o sentido fraturado da memória.

A partir do conceito poético que o artista denomina “O tempo é água”, a passagem do tempo é colocada em evidência, mas também em xeque. Peças de roupa de cama (fronhas e lençóis) são bordadas com imagens extraídas de publicações antigas e exibidas dobradas e encerradas em caixas de acrílico. Diante deste tempo congelado, guardado com o cuidado com que se guardam os enxovais, o observador desvenda vestígios de uma memória coletiva, que ao mesmo tempo em que lhe pertence também lhe é tão distante. Fragmentos de corpos e de palavras sugerem a liquefação da memória, a impossibilidade de acessa-la, de apreendê-la, compreender que restos de tempo são estes que foram produzidos do tempo presente e que estão fadados a desaparecer. A memória do presente se desfaz diante dos olhos de quem mergulha nas entranhas dos bordados mordazes de Sobral.

A biblioteca de Hilal Sami Hilal, assim como as imagens abertas de Enrica Bernardelli não seriam feitas desta mesma mescla de mordacidade e nostalgia? Livros feitos de cobre em processo de corrosão formam a “Biblioteca” de Hilal. Nestes livros, o que se “lê” é o tempo, e a sugestão de uma memória corroída, apagada, contrasta com a potência de conduzir energia que o metal vem agregar aos “livros”: se a modernidade líquida relativiza tudo em que se baseava a sociedade, e uma de suas bases mais sólidas era o conhecimento acumulado e assegurado na materialidade dos livros e das bibliotecas, a resposta do artista é que, consumidos pelo tempo, os livros podem ser signo de energia condutora. O conhecimento torna-se leve e circula, imaterial, no fluxo das redes informacionais.

Enrica Bernardelli, em cuja trajetória são conhecidas as fotografias com cortes circulares em que o único ponto focado da imagem de um rosto de mulher, por exemplo, é aquele pequeno segmento que foi rotacionado, todo o restante deixado fora de foco, apresenta na exposição três imagens com partes apagadas. O jogo entre figura e fundo que a artista obtinha com o recurso do foco, aqui é obtido por meio de listras brancas que segmentam toda a fotografia, apagando-a. O plano geométrico das linhas sobressai em relação à paisagem ou figura retratadas no fundo. Sua obra trata daquilo que escapa à qualquer representação, sobretudo em tempos de modernidade líquida, quando a impossibilidade de fixar um momento, uma história, uma memória se evidencia. Qual a validade de uma fotografia estática em tempos de fluidez, parece nos questionar a obra de Enrica, que consegue habilmente que suas imagens estejam em movimento contínuo.

Oxidar, corroer, apagar. Estratégias artísticas contemporâneas para dar conta da instabilidade da condição humana. Carlos Bevilacqua lida com esta condição por outra via: buscando um equilíbrio tão precário quanto o homem contemporâneo em esculturas concebidas com os materiais e o imaginário da tradição escultórica –e, portanto, do homem moderno ou pré-moderno. “Ponte sem Tempo” faz a ligação e a síntese entre momentos diversos da história da arte. Feita em madeira, aço carbono e cabo de aço niquelado e folhado, a escultura é constituída de duas formas retangulares assimétricas: uma, longilínea, chega até o chão e a outra, encurtada, está pousada sobre uma base. Giacometti encontra Brancusi. Os cabos de aço que unem e geram a tensão entre estes dois pousos têm a forma de uma parábola. Calder encontra Leonardo da Vinci e demais geômetras renascentistas.

Suas esculturas são aparentemente estáticas e, no entanto, trazem uma sugestão de movimento, principalmente “Alpha Nova”, que também está na exposição. “Elas vibram em uma freqüência muito pequena”, confessa o artista, uma vez que seu pensamento matemático e sua linguagem geométrica são perpassados pela fragilidade da condição contemporânea. Qual a validade de uma escultura estática em tempos de fluidez, parece nos questionar a obra de Bevilacqua. Seu discurso escultórico encerra as condições clássica e contemporânea conjugadas, faz pontes atemporais, frágeis que sejam, para um contexto social e artístico de precariedade. Marcone Moreira trabalha a poética do precário por outro viés. Faz assemblages de materiais descartados, principalmente restos de madeira de construções, obtendo uma composição pictórica impecável.

A cultura do descarte, da reutilização, da apropriação e do remix marca a produção artística contemporânea atual de forma radical. Fábio Tremonte, Eliane Prolik, Alexandre Vogler, Walton Hoffmann e Nina Moraes capturam a matéria-prima de seus trabalhos na malha das redes comunicacionais, nos fluxos da vida e nas confluências do tempo. Tremonte coleciona fragmentos de filmes e vídeos; Eliane coleciona ditos populares e tradições rendeiras e criveiras; Vogler apropria-se da cultura kitsch de montar quebra-cabeças e emoldurá-los para enfeitar a sala; Hoffmann navega por constelações e por mapas detalhados de cidades quase tão distantes quanto as estrelas; Nina coleciona cacos do cotidiano, cataloga refugos e faz, assim, uma arqueologia da vida comum.

Os vídeos “Zapping Movie” e “Zen”, de Fábio Tremonte, captam no ato a volatilização dos fenômenos culturais. O primeiro, uma colagem de filmes que vão de “Blade Runner” a “Dogville”, passando por “O Livro de Cabeceira” (Peter Greenaway), “Cremaster” (Mathew Barney), “Kill Bill” (Quentin Tarantino) e inúmeros fragmentos totalmente inidentificáveis de obscuros programas de TV a cabo, trata de busca incansável pela última novidade par e passo com o seu decorrente anestesiamento –se tudo se equivale, por que mudar de canal? O vídeo de Tremonte coloca o espectador na zona sombria entre o acúmulo de repertório e a catatonia. “Zen” é uma promessa que, como não poderia deixar de ser, não se cumpre; é o hino da geração líquida transformado em mantra, é uma ode ao nosso desassossego.

Eliane Prolik provoca um ruído na dicotomia saciedade/anestesiamento, pensada no âmbito da linguagem. Devolve sentido às palavras gastas dos ditados populares, deturpando-os. E provoca ainda um outro choque, temporal, ao gravar estas frases feitas, que circulam na velocidade da luz, em rendas portuguesas construídas detidamente por criveiras. Na obra “Pintura de Retoque – Manhattan”, o artista Alexandre Vogler vale-se de uma técnica de restauro para apagar as torres do WTC de um quebra-cabeça que forma a imagem idílica da Nova York pré-2001. Walton Hoffmann, trabalhando sobre mapas de cidades marcadas pelo estado de guerra permanente, no passado ou nos dias atuais, como Hanói e Bagdá, devolve o idílio sobrepondo-lhes uma composição celeste. O acento político destas três obras é inegável.

Colecionar quinquilharias é também um ato político. A ecologia cultural operada por Nina Moraes tem como resultado, nas obras apresentadas nesta exposição, um conjunto escultórico fluido, de variações tonais que o fazem dialogar também com a pintura. São tótens erigidos ao trivial que, à exemplo da inversão de Eliane Prolik dos ditados populares, dão renovado e potente sentido aos cacos do dia-a-dia. Nas colagens de Nina Moraes, o mesmo pensamento é posto em prática em diferente suporte. Restos de papel de embrulho, lascas de durex, pedaços descartados de papel nobre de desenho, conjugados, transmutam-se em pinturas admiráveis. Caetano Dias traz algo de transubstanciação com sua escultura “Unidade II – combinado de casa de cupim e banco de madeira”: a pequena casa fadada a ser destruída pela sua própria natureza, ao consumir a sua base.

A grande musa inspiradora desta exposição, que gerou o título “Presente Líquido”, é a obra de Tatiana Grinberg, feita de gel de alta viscosidade branco e objetos em plástico perfurados, que, coincidentemente, chama-se “Musa”. Palavras da artista: “Esparramada pelo chão a Musa não tem forma precisa, tem dimensões variáveis, metamorfoseia-se continuamente, revisa a superfície dentro/fora. É uma massa branca leitosa de memória curta que ao ser manipulada guarda por alguns segundos a textura, a forma do que a toca. Sua densidade fluida não deixa que o contato passe de uma impressão efêmera, mas o fato de não ser perene não apaga as modificações ocorridas –sobra a memória do outro, do corpo que se aproxima e troca calor, sobre uma massa de índices misturados”. Este texto de Tatiana Grinberg fala de sua obra, mas também define a modernidade líquida.